sexta-feira, 5 de abril de 2013

Deserto.



Por Juliana Camargo.

Estava num deserto. Embaixo de um sol tão árduo, que parecia estar mais próximo da Terra. Brotava apenas uma vontade de encontrar um local de sombra e água pura! Não precisava nem estar fresca, contanto que fosse pura.

Depois de caminhar por horas, no final do dia, eu avistei um pequeno riacho. Meus passos de apressados passaram para desesperados. A vontade era tanta que o córrego parecia secar durante segundos. Quando cheguei, vi que ele era menor do que parecia. Não daria para me refrescar. Embora pudesse beber desta água com toda calmaria minhas mãos tremiam e minha vontade de saciar a sede, fazia com que a água se esvaísse por entre os dedos. Era visível meu desespero.

 Ao contrário do que se pensa a sede não é gerada apenas pelo fator ambiental, mas também pelos estímulos interiores. A vontade tinha muito mais haver com meu medo de não chegar ao destino, medo de não encontrar mais água, medo de não cumprir minhas metas, medo de não alcançar as minhas expectativas, medo.


Depois de uns cinco minutos me refrescando, criei coragem. Não sei de onde ela veio, talvez do medo. Ainda tinha um longo percurso a se fazer, não sei para onde. O sol com seus lindos raios de ouro davam adeus ao solo, deixando no céu encantadores tons de azul.  À noite contemplei o mais lindo espetáculo celeste, com tantas estrelas que jamais vi igual. Por volta do meio da noite eu consegui um abrigo. Meu maior receio era encontrar com algum animal asqueroso! Eu sabia que poderia enfrentar isso novamente, afinal desde que coloquei os pés naquele território isso seria óbvio. O que eu não imaginava era me perder do grupo, nem dormir no deserto. Isso que dá ter tanta curiosidade! Eu fui apenas ver um tipo de rocha diferente, e acabei demorando mais do que o necessário.

Naquela noite como em tantas outras, eu me perdi também nos meus pensamentos. Viajei por um instante para próximo das pessoas que gosto e das que não tenho tanta admiração. Quando será que os encontraria novamente? As lágrimas foram inevitáveis. Quantas coisas eu não disse! Quantas coisas eu disse sem necessidade. E o questionamento que mais rondava meu coração, era como seria dali para frente? Até quando? Onde isso iria terminar? Como terminaria? Eram perguntas sem nenhuma resposta certeira.

Então peguei num sono muito profundo. Neste instante comecei a sonhar e logo ouvi uma voz. Por mais que eu tente, não consigo lembrar tudo o que a voz disse, mas ela me trazia uma paz.

Quando acordei, ainda de madrugada, percebi que um dia começava. Depressa peguei a minha mochila e prossegui. Eu sabia que a caminhada era difícil, todavia não estava só. Assim foi durante mais cinco horas. O medo de não chegar, a ansiedade de cumprir o caminho, a esperança de terminar tudo bem.

A voz não impedia que dentro de mim houvesse um turbilhão de pensamentos, mas ela me acalmava. Se eu encontrasse novamente o caminho, estaria salva e em casa. Mas se perdida eu ficasse, logo viriam a sede e a fome, então não suportaria por muito tempo, encontraria um Lar eterno. Por fim se eu sobrevivesse dia após dia, faria algum abrigo, e criaria um novo lar. Cada vez que eu pensava que o plano de Deus era perfeito e que tudo estava em seu controle mais calma eu sentia, pois todas as respostas eram melhores do que a situação em que eu me encontrava.

Foi assim que estranhamente no final daquela manhã, quando me sentei durante alguns minutos, vi ao longe um peregrino. Gritei e no mesmo instante corri! Uma mistura de sentimentos mergulhava em meu coração e saltavam para boca. Aproximando vi que era um dos turistas que estavam na mesma hospedagem que eu. Emocionada, agradeci a Deus e ao rapaz. Com a experiência que ele tinha em expedições naqueles territórios, chegamos muito rápido ao grupo.

Finalmente em casa. Naquela noite quando me deitei em minha cama, dela avistei a janela. As mesmas estrelas do deserto estavam lá no meu céu, a única diferença é que estava sob um teto, próximo a conhecidos e amigos, e sem o risco de encontrar algum animal asqueroso! Isso me fez entender, que não importava onde estivesse ou com quem estivesse, com tanto que a voz que ecoou no deserto do meu coração, ecoasse novamente.

Vi que a sede era um instinto inevitável. Uma necessidade interna, humana. E assim como a necessidade humana, há uma necessidade espiritual, uma sede que teve um fim.

Jesus respondeu, e disse-lhe: Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna. (João 4:13-14)

Dois homens olharam através das grades da prisão; um viu a lama, o outro as estrelas. (Santo Agostinho)



Juliana Camargo, 26 anos. Designer, amante da arte e da comunicação. Tenta entender um pouco da mente humana e como as Escrituras podem ser o diferencial para o indivíduo.
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